ALIANÇA BRASIL ESTADOS UNIDOS – FRANK D. MCCANN

MCCANN, Frank D. A Aliança Brasil Estados Unidos (1937-1945). Rio de Janeiro: BIBLIEX, 1995.

Capa do livro

Leitura imprescindível para aqueles que desejam se aprofundar não apenas na História do Brasil no período pré e durante a II Guerra Mundial, mas também a todos que desejam compreender de forma mais clara o jogo político efetuado pelo governo de Getúlio Vargas durante o Estado Novo (1937-1945). O autor, Frank D. McCann é professor da Universidade de New Hampishire, EUA. Desenvolve desde a década de 70 pesquisas sobre o Brasil, quando recebeu quatro bolsas consecutivas da Fundação Fullbright. Publicou seu primeiro livro sobre o Brasil ainda em inglês. Suas principais obras em português são publicadas a partir da década de 80 em forma de artigos. Em 1982 publica A Nação Armada: Ensaios sobre a História do Exército Brasileiro e em 1995 a Biblioteca do Exército publica A Aliança Brasil Estados Unidos. Seu mais novo trabalho é Soldados da Pátria publicado pela Companhia das Letras em 2007.

O livro A Aliança Brasil – Estados Unidos possui quinze capítulos que abordam o período compreendido entre 1937 e 1945. O objetivo do autor é apresentar um panorama da política internacional brasileira neste período, sobretudo as relações do governo Getúlio Vargas  com a Alemanha e com os Estados Unidos.  Os capítulos iniciais buscam contextualizar, num primeiro momento, o período. O autor parte do golpe do Estado Novo, efetuado pelo governo Vargas em novembro de 1937, e constrói um panorama coeso do Brasil dos anos 1930 no âmbito social e econômico. Em seguida, o autor analisa a trajetória de Oswaldo Aranha, Embaixador do Brasil nos EUA e em seguida ministro das Relações Exteriores do governo Vargas, que desempenhou importante papel no período para a consolidação das relações entre o Brasil e os EUA na década de 1940. Seu fascínio pelos EUA era visível. Em março de 1938 Getúlio o convence a ser Ministro das Relações Exteriores. Aranha fazia era o meio termo entre Vargas e as ideias autoritárias de Francisco Campos. Simbolizava ainda um forte vínculo democrático com o Estado Novo devido as suas crenças. A manutenção de Aranha no governo foi, para McCann, uma alternativa sábia em relação à política exterior do Brasil com os EUA e a manutenção de sua amizade.

No final dos anos 30 o aumento da atividade alemã no Brasil e na América Latina causou preocupação dos EUA. Com isto a seção latino americana do Departamento de Estado foi reformada e uma maior aproximação com o governo brasileiro teria inicio. No final de 38, sob supervisão de Cordell Hull a Divisão das Republicas Americanas contava com 14 oficiais que pesquisavam sobre os países e suas necessidades. Além disso, cria-se uma divisão de assuntos culturais para facilitar a troca intelectual entre os países. O estreitamento de relações passou também ao campo militar: mesmo sendo o exército americano um exército que não inspirava respeito na América Latina, o governo americano passou a considerar o envio de missões militares ao estrangeiro bem como a possibilidade de venda de armamento. Ao Brasil interessava principalmente a questão do armamento.

A cooperação militar, no entanto, sofreria sérios entraves. A legislação americana era restritiva quanto a este tipo de negociação e a indústria era incapaz de oferecer preços competitivos e condições para o governo brasileiro. Por conta disso, apenas em 42 as conversações terão mais efeito. Por outro lado, o Brasil se virava por conta própria: o governo havia planejado um programa de rearmamento de cinco anos com investimento de 100 milhões de dólares e buscou fornecedores na Europa, sobretudo na Alemanha nazista.

O governo americano, a partir de 1939, inicia um esforço concentrado para manter a supremacia do comércio com o Brasil. Para os americanos e, em parte, para o governo alemão, o comercio era forma mais eficaz de se disseminar a influencia nazista no Brasil e na América Latina. A partir de 1935 o Brasil passou a fazer sucessivos acordos informais de comércio com a Alemanha. O comércio já não se restringia apenas ao café ou o algodão: o cacau, a madeira, a manteiga e a lã eram produtos adquiridos pelos alemães também. Com a ampliação deste comércio, Vargas objetivava também a criação de novos grupos de poder no país. Era uma estratégia nacionalista para proteger o Brasil das influencias políticas tanto da Alemanha quanto do Brasil.  Além do mais, a Alemanha oferecia uma oportunidade de expansão das exportações bem como a possibilidade de comprar produtos acabados sem gastar divisas.

A Guerra abriu uma nova perspectiva às relações exteriores do Brasil. O comércio com o Reich tendia a declinar, principalmente por conta do bloqueio britânico imposto a Alemanha. Por outro lado, o Brasil enfrentava um novo problema: as forças armadas eram fortes o bastante para manter Vargas no poder; mas não o eram para defender o país. Durante o ano de 1940 o Brasil tentou barganhar junto aos EUA e a Alemanha apoio para seus projetos de modernização. Durante a primeira metade de 1940 os esforços de Vargas se concentraram no desenvolvimento econômico do país, na cooperação interamericana e na neutralidade perante a guerra na Europa.  Os militares continuavam com seus olhos voltados à Europa. Entre março e abril encomendaram equipamentos da Itália. Vargas, em uma série de discursos, apregoava a neutralidade brasileira frente ao conflito. Intimamente, todos no governo acreditavam em uma vitória rápida da Alemanha e em entendimentos entre os beligerantes e a Grã-Bretanha a fim de iniciar a paz.

Em julho de 1940 o governo brasileiro consegue a liberação de um empréstimo no valor de 10 milhões de dólares para o inicio das obras de construção de Volta Redonda. O dinheiro foi conseguido graças a viagem de Guilherme Guinle aos EUA. Os americanos aceitaram cooperar com o Brasil: Volta Redonda seria exclusivamente nacional, mas seus recursos seriam em parte americanos em parte brasileiros. OS americanos também cooperariam com técnicos e a logística necessária. O acordo foi recebido com satisfação no Brasil. Traduzia o real significado da amizade entre Brasil e EUA. Com os problemas desencadeados pela guerra, a usina só foi entregue em 1946.

Este acordo também ajudou nas conversações militares. Os americanos mantinham ainda alta prioridade em relação ao saliente nordestino. Em julho os planos de guerra americanos previam que se a Inglaterra fosse derrotada as forças alemãs viriam através da África em direção ao Brasil. Na verdade estes planos nunca existiram, mas os chefes militares americanos agiam como se a invasão fosse eminente. Novos planos em 1940 para o rearmamento do Brasil são sugeridos, sem se chegar a um consenso. A farta colaboração só viria dois anos depois, a partir de 42. Até lá as relações militares seriam mantidas com desconfiança por parte dos militares brasileiros.

Por outro lado, os EUA conduziam uma maciça propaganda no Brasil através do Bureau de relações Interamericanas administrado por Rockfeller. O Bureau era responsável pela troca de informações entre o Brasil e os EUA. Embora a diplomacia entre os países datasse do século XIX, um não conhecia nada do outro. O Bureau fiara responsável então por aumentar os vínculos de conhecimento entre os dois países. Os americanos achavam que no Brasil se falava espanhol e confundiam sua capital com Buenos Aires. Os brasileiros, por sua vez, nada conheciam do American Way of Life e traduzir em princípios este estilo de vida foi uma das funções do Bureau. O objetivo era ‘americanizar’ o Brasil para que a opinião pública não se opusesse aos seus planos em relação ao saliente nordestino.

Com o ataque a Pearl Harbor em dezembro de 1941, os EUA insistem que todos os países americanos rompam suas relações diplomáticas com a Alemanha. As pressões americanas surtiram efeito e o Brasil, juntamente com a maioria dos países latino americanos, rompeu as relações com a Alemanha. Cobrando as promessas americanas por este ato, o governo brasileiro conseguiu um acordo de arrendamento de equipamento militar no valor de 200 milhões de dólares além de empréstimos no valor superior a 100 milhões de dólares para os projetos de desenvolvimento brasileiro.

Os capítulos finais do livro giram em torno do envio da Força Expedicionária Brasileira para a Europa. McCann inicia o capítulo afirmando que a decisão brasileira de ir à guerra teve desdobramentos de longo alcance. Por um lado, forçou os países vizinhos a optar entre a neutralidade e a beligerância; por outro, aproximou ainda mais a estreita aliança com os EUA. No entanto, mesmo antes de entrar na guerra, o Brasil já havia contribuído juntos aos americanos ao ceder as bases para a Marinha, a construção dos aeroportos e a passagem de aviões sobre território brasileiro. A Conclusão é que se a Alemanha não tivesse atacado o Brasil, dificilmente o governo sairia da sua posição de neutralidade.

Mas quando começou a pressão pelo envio de tropas? Os militares brasileiros haviam requerido o fornecimento de armas aos EUA desde 1938. Sem respostas positivas e efetivas em 42, chegaram a conclusão de que apenas o envolvimento direto asseguraria o fornecimento de armas pelos EUA. A partir de outubro de 42 já se podia ouvir oficiais brasileiros conversando sobre o envio de uma força. Em dezembro aumentava ainda a pressão e a imprensa tomou parte na campanha. Quando do encontro com Roosevelt em Natal, Vargas sabia exatamente o que pedir. E sua satisfação ao termino evidenciava o apoio americano aos seus planos. A conferencia de Natal fez Washington visualizar que, se outra nação americana participasse da guerra, a posição dos EUA como líder e porta voz do continente aumentaria no pós-guerra.

About Fernanda Nascimento

Mestre em História, atualmente é doutoranda pela PUCRS e apaixonada por história militar. Conduz pesquisas sobre o Brasil das décadas de 1920 e 1940 e, atualmente, estuda o Exército dos anos 1920. Colecionadora de artigos relacionados aos grandes conflitos mundiais, tem especial interesse pela II Guerra Mundial, a posição do Brasil e seus desdobramentos.
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