OS SOLDADOS JUDEUS DE HITLER – Bryan Mark Rigg

RIGG, Mark Bryan. Os Soldados Judeus de Hitler. Rio de Janeiro: Imago, 2003. 457p.

Este livro fornece aos leitores uma nova maneira de ver uma das questões mais importantes da história do Terceiro Reich, a identidade judaica. Mais especificamente estuda o fenômeno dos judeus e de homens de parcial ascendência judaica, chamados Mischlinge”.

Depois de séculos de casamentos mistos dos judeus na sociedade alemã, classificar quem era judeu puro, meio judeu, ou um quarto judeu, tornou-se um trabalho difícil, em face da aplicação das leis raciais que se tornaram mais agressivas a partir da ascensão de Hitler ao poder.

A despeito de milhões de judeus terem sido exterminados em decorrência do Holocausto, dezenas de milhares de homens de ascendência judaica serviram na Wehrmacht durante a Segunda Guerra Mundial. Estima-se que o número deles chegou a 150 mil homens, incluindo veteranos de guerra condecorados e oficiais de alta patente, até mesmo generais e almirantes.

Embora fosse tentada, a investigação e afastamento dos “Mischlinge” dentre os militares foi muito prejudicada pela inconsistência das legislações nazistas em torno do assunto. Por outro lado, era muito complicado e difícil determinar quem era meio judeu, já que as pesquisas em árvores genealógicas mostravam-se imprecisas. O Dr. Achim Gercke, perito em pesquisa racial, disse em 1935 que “para determinar o sangue judeu de todo o povo Alemão, seria preciso mil pesquisadores de famílias trabalhando durante tinta anos”.

Muitos “Mischlinge” não se consideravam judeus, ou por desconhecimento de suas raízes ou por se comportarem como dedicados patriotas. Eles se comportavam do mesmo modo que os arianos: por lealdade a Alemanha, crença no governo nazista, motivos oportunistas ou, o mais comum, por uma mistura disto tudo.

Um exemplo disto foi o que disse o primeiro-tenente Heinz Dieckman, 75 por cento judeu: “naquele tempo eu era um nazistinha… Estava fascinado por Hitler. Achava-o maravilhoso… Hoje nós vemos apenas o demônio, mas naquele tempo não o víamos assim”. Outro exemplo é Peter Schliesser. Embora fosse expulso da escola, chamado de judeu e espancado, acreditava nos ideais de Hitler e se sentia impressionado pelo que o Fuhrer fizera “tirando a Alemanha da recessão e praticamente eliminado a pobreza”. Ironicamente, no entanto, Hitler desempenhou papel direto na permissão para que muitos meio e um-quarto judeus servissem na Wehrmacht, enquanto milhares de outros eram exterminados.

As causas que levaram Hitler a conceder isenções a “Mischlinge” são controversas. Alguns afirmam que foram motivadas por causa de seu próprio passado judeu. Este assunto, descendência judia de Hitler, até hoje não ficou completamente provado, embora existam pronunciamentos de alguns de seus assessores mais próximos que garantem que seu avô tinha sangue judeu.

Outro ponto é que Hitler tinha a capacidade de ignorar “defeitos” em homens que ele achava que podiam servir a sua causa política. É o caso de Ernst Rohm, o chefe dos camisas pardas (SA), que era homossexual. Mesmo perseguindo os homossexuais, permitiu que Ernst Rohm permanecesse em seu cargo até o dia que não mais precisou dele, já que os SA começaram a fazer concorrência à recém criada SS, eliminando-o no evento que ficou conhecido como Nacht der langen Messer (Noite das Facas Longas). É o caso, também, de Reinhard Heydrich, a “Fera Louca”, chefe do Departamento Central de Segurança do Reich e um dos arquitetos da Solução Final do problema judeu. O possível “defeito” de Heydrich era a sua ancestralidade judaica.

Hitler também concedeu isenções por necessidade militar. Dois exemplos são o Marechal-de-campo Erhard Milch e o General Helmut Wilberg. Hitler precisava destes homens, de comprovada capacidade militar, para desenvolver a Luftwaffe. Milch tornou-se um dos homens mais poderosos na Luftwaffe e no Terceiro Reich. Igualmente, Wilberg desenvolveu um importante trabalho em terra para o conceito operacional da Luftwaffe, posteriormente conhecido como Blitzkrieg. Durante a Primeira Guerra Mundial, Wilberg foi o primeiro comandante aéreo alemão a organizar e empregar grupos aéreos inteiros em papel de ataque ao solo. Foi um dos altos oficiais no Luftstreitkräfte – serviço aéreo na Primeira Guerra Mundial – e comandou mais de setecentos aviões na grande campanha de Flandres em 1917.

Hitler também permitiu que “Mischlinge” servissem porque tinham um protetor ou parente importante. Raeder e Goring são exemplos de lideres que usaram de sua influência para conseguirem isenções diante de Hitler. Encontra-se a assinatura de Hitler em muitas dessas ordens de isenção.

Os membros da SS e do partido, no entanto, tinham de provar a sua ancestralidade ariana pura recuando até 1800 para permanecer em seus cargos. Os oficiais tinham que remontar sua ancestralidade até 1750.

Mas quando a guerra começou a se arrastar, a política nazista levou de roldão a lógica militar, mesmo diante das crescentes necessidades de material humano da Wehrmacht, e foi tapando brechas na lei, tornando praticamente impossível a esses soldados escapar do destino de milhares de outras vítimas do Terceiro Reich. Como disse Eichmann durante seu julgamento em Jerusalém: “os  “Mischlinge” eram protegidos por uma floresta de dificuldades por causa de seus parentes não judeus e  porque não havia um meio eficaz de esterilização”.

Hitler disse, várias vezes, que trataria dos meios judeus depois da guerra. Em 1942 Hitler teria dito que estava cansado dos problemas com os “Mischlinge” e que trataria deles depois da guerra. Muitos “Mischlinge”, hoje, não têm dúvidas sobre o seu destino caso a Alemanha ganhasse a guerra e Hitler continuasse o seu governo.

Hitler condenava a brandura na questão judaica e rejeitava os que tratavam com tolerância qualquer um de ascendência judaica. Mas praticou o que em última análise condenava, e muitas vezes abriu exceções a sua própria ideologia. Apesar disto, a situação dos “Mischlinge” estava à beira de se tornar um pesadelo. Vendo-se o currículo do Fuhrer  está claro, agora, aonde ele ia chegar com relação aos “Mischlinge “.

Por final o autor demonstra como eram imperfeitas, desonestas, corruptas, falidas e trágicas as teorias e políticas raciais de Hitler e dos nazistas.

Nota: Significado da palavra Mischling

A palavra Mischling significa mestiço, vira-lata ou híbrido. Primeiramente foi aplicada  a pessoas com um dos pais negros e outro branco nas colônias alemãs na África. Na década de 1920, quando soldados franceses tinham filhos com mulheres alemãs, estes eram chamados de Mischling. Em 1935 as Leis de Nuremberg criaram duas novas categorias “raciais” o meio judeu (Mischling de judeu em primeiro grau) e um-quarto judeu (Mischling de judeu em segundo grau). O meio judeu tinha dois avós judeus e o um-quarto judeu tinha um.

Singular: Mischling

Plural: Mischlinge

 

About Sergio Nascimento

Engenheiro Eletrônico de profissão, mas plastimodelista e amante de história militar.
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